sábado, 15 de maio de 2010

Religião científica X minha vida

É inacreditável para nós, mortais sulamericanos, a construção de um túnel subterrâneo, entre 50 e 175 metros abaixo da superfície, com 27 km de extensão – uma obra realizada na Europa, que já custou em torno de 10 bilhões de dólares e 16 anos de trabalhos.

Mais inacreditável que o equipamento é a forma como a imprensa noticia estes fatos.

Uma grande revista de circulação nacional, por exemplo, em edição de abril, afirma que esse equipamento permitiu reencenar o Big Bang pela primeira vez: a “grande explosão que deu origem a tudo o que conhecemos”. E ainda apela para a eloquência, afirmando que o Bing Bang é “o maior evento de todos os tempos”.

Nenhuma mísera palavra que pudesse lançar qualquer dúvida sobre essa “explosão” que afirmam ser o início do processo de um “acaso criador de tudo”, ocorrido há bilhões de anos. Afinal, que jornalista ousaria desafiar a inquisição científica, proferindo tal heresia?

É... vivemos numa moderna idade das trevas. Assim como alguns clérigos da idade média temiam citar textos bíblicos que contrariassem dogmas da religião então predominante, jornalistas desta idade das trevas não ousam contrariar a fé científica.

Como dizer que existe liberdade de expressão, quando não parece haver sequer liberdade de pensamento? Como podemos nos dizer sérios e evoluídos se as revistas que circulam no nosso meio, as únicas que dispomos para saber um pouco daquilo que acontece no mundo, citam uma experiência científica como a criação do mundo reencenada. Um ingênuo que leia aquele texto pode até mesmo acreditar que a “primeira explosão” foi filmada.

O texto ainda afirma: “...A colisão gerou energia e temperaturas que não se viam desde o primeiro instante da história do cosmos”. Tudo retórica, força de expressão, é claro. Mas não usam expressão alguma para sequer supor que a “explosão do acaso criador” é apenas uma tese que tenta negar a existência de Deus.

Eu nunca fui para a faculdade. Fiz e mantenho um registro de jornalista porque nem tudo está perdido e ainda há bom sendo suficiente neste país para que prevaleça o direito à liberdade de expressão.

Diante da constatação destas trevas, fico agradecida por não ter podido frequentar e não ter nenhum compromisso com o meio acadêmico. Pois me sinto livre para pensar e contrariar a opinião da maioria, essa fé predominante em nosso tempo: a religião científica.

Acredito que as religiões que se baseiam na bíblia pelo menos se fundamentam em registros antigos, emitidos por aqueles que viveram antes de nós, por pessoas que demonstraram ser capazes de uma compreensão superior e, por isso, foram reconhecidas como profetas pelos nossos ancestrais. Pessoas que eu reconheço como profetas, com base naquilo que entendo ser ciência séria. Porque viveram de tal maneira que nossos ancestrais, seus contemporâneos, testemunhas de sua existência e dos milagres que praticaram, assim o reconheceram.

Afinal, os relatos, os escritos preservados por gerações, são, sim, tudo o que temos de concreto sobre nossas origens. Qualquer outra teoria é mera especulação, conjectura. A maioria delas desaba, quando se fala em provas, em demonstração concreta ou nas outras tantas teorias possíveis: não há limites para a imaginação.

Entendo também que racionalismo é acreditar naquilo que constato em minha vida, a cada dia. E vejo uma lógica incompreensível regendo acontecimentos que não parecem ter qualquer relação, no entanto, com o tempo, mostram-se encadeados como elos de uma só corrente.

Por muitos anos, não enxergava essa relação entre os fatos. Mas houve um divisor de águas na minha vida. Por volta dos trinta anos de idade, sugeriram que eu fizesse um jornal em São Pedro de Alcântara, praticamente propuseram uma sociedade. Mas, depois de me comprometer com o projeto, constatei que estava sozinha. Foi quando outra pessoa me desafiou a viver a fé como prática diária, na Igreja que eu freqüentava havia três anos. Concluí que não tinha outro jeito. Orei, afirmando que colocava o projeto do jornal nas mãos d’Ele e deixei-me guiar.

Os acontecimentos então fluíram. Fiz um jornal com distribuição gratuita, mantido por anunciantes. Rompi com prefeitos, publiquei muitas denúncias: de fraudes, corrupção, etc. – tudo o que constatei e pude provar.

Isso só foi possível porque consegui superar a minha ansiedade, a preocupação com as contas a pagar no dia seguinte, que até então me dominava. Superei a mim mesma, pela descoberta da fé concreta, pela certeza da proteção superior, de que nada me faltaria, porque Ele me concede tudo. Foram trinta e duas edições ao longo de oito anos (1998–2006).

Sem a descoberta dessa fé, eu não faria sequer a primeira. Mas também, depois que tudo se concretizou, olhei para o meu passado e vi que muitos acontecimentos anteriores contribuíram para que eu realizasse aquele projeto.

Sempre tive paixão por Literatura e adoro escrever, desde a infância. Rasguei a ficha de inscrição para o vestibular de Pedagogia, aos dezoito anos, porque então encontrei coragem para admitir que se fizesse alguma faculdade deveria ser Jornalismo. Meu primeiro emprego em Florianópolis foi com um editor que iniciava um pequeno jornal.

Tive muitos outros empregos, sobretudo na área de vendas, a maior parte em publicidade: jornal, televisão, exibidora de out-door e agência. Trabalhei também como autônoma na área. Aprendi a criar, produzir, vender anúncios, etc.

Cada vez que perdi um daqueles empregos ou que algum negócio não dava certo, achava que minha vida não fazia sentido. Por isso, passei muito tempo frustrada, sentindo-me incapaz, com baixa autoestima. No entanto, aproveitei no jornal um pouco de cada um dos empregos que perdi, das experiências malsucedidas e tive que concluir que havia lógica, onde tudo parecia absurdo.

Essa lógica que eu também já preferi chamar de ironia do destino, “acasos da vida”.

Mas por que chamar de ironia do destino, de acaso, quando está claro que há uma inteligência muito superior à nossa no comando? Orgulho, incapacidade para admitir que somos dependentes que devemos tudo a um Ser Supremo?

A minha vida tornou-se bem mais fácil, quando reconheci essa força no comando, reconheci que necessito d’Ele, que sem a luz de Seu Espírito sou incapaz. Quem sabe um dia nossa civilização possa evoluir de fato e reconhecer o mesmo.

“Agrada-te de Deus e Ele satisfará os desejos do teu coração”.

Há uns cinco anos, quando minha filha frequentava o Ensino Confirmatório, na comunidade evangélica luterana, chegou em casa dizendo que o pastor Edson estava muito mal, numa UTI, que teve uma infecção e os médicos não conseguiam curá-lo. Eu então lhe disse que o pastor Edson era um homem muito bom, por isso sobreviveria.

No final daquele ano, ao ver o pastor Edson na Igreja, contei essa história. Na saída, notei que ele me olhou com reprovação, mas nada disse. Fiquei com uma sensação estranha e logo compreendi que ele morreria, quando anunciaram que estava novamente na UTI, em agosto do ano passado. Ele sofreu um acidente cardiovascular e faleceu em poucos dias.

Entendi, aceitei, mas não pude explicar. Queria corrigir aquilo que disse, sobretudo para sua família. Muitas vezes comecei a escrever, dizendo que errei, que as pessoas boas também morrem cedo. Que devemos entender que a morte é uma mensagem, que nos manda viver sempre preparados para prestar contas de nossa existência. Mas não consegui.

Há alguns meses, falava de fé com uma amiga e ela disse que sua família não conseguia aceitar o falecimento de sua sogra, que foi soterrada por um deslizamento. Disse que era uma mulher muito boa, que vivia em razão dos filhos e netos, de sua família.

Contei-lhe aquilo que aprendi com a morte de pessoas jovens e queridas. Mas ela insistiu em falar da revolta da família. Então eu lhe disse que precisamos ter consciência de que não nos cabe julgar Deus, porque ele é Deus e nós somos só poeira.

Pronunciei e logo me surpreendi com a força dessas palavras. Refletindo sobre isso, compreendi que me faltavam essas palavras para corrigir o que disse sobre o Pastor Edson.

Acho que na monarquia era bem mais fácil aceitar a idéia de um Rei Supremo e agir como Jó diante das adversidades.

Elegendo nossos líderes, fiscalizando, julgando os governos da atualidade, achamos que temos o direito de julgar Deus, como se Ele nos devesse sua existência, o seu poder.

Precisamos entender que podemos ser súditos de um Rei bom, justo, generoso e misericordioso, mas Ele é também Senhor Absoluto. Por isso, se afasta ou é afastado da vida das pessoas que acreditam estar em condições de criticá-Lo.

E vejo muita gente hoje vivendo sem a força de Deus. Parecem carregar o inferno dentro de si. Por mais que tenham, estão sempre insatisfeitos, incomodados com aquilo que não podem possuir.

Outras pessoas, mesmo passando por doença, miséria, são gratas por aquilo que lhes resta. Vivendo situações que qualquer um classificaria como infelicidade, mantêm o coração sossegado, em paz, entregue ao poder de Deus. Essas pessoas vivem no paraíso, mesmo habitando esse mesmo mundo de misérias, desgraças e apelos consumistas no qual vivemos.